Texto e fotos de Carlos Carvalho
“Ao analisar uma coisa tão simples como uma etiqueta colada numa banana, pude observar que o que consumimos é, na verdade, uma ausência – a ausência do trabalho, a ausência das relações estabelecidas entre os sujeitos consumidores e produtores; a ausência do ambiente no qual as mercadorias são produzidas, etc.. Consumimos ausências adoráveis; e é isso que faz nossas sociedades de consumo tão irresistíveis e tão convidativas: ninguém precisa refletir a respeito das realidades da produção capitalista”.
Susan Willis, norte-americana – pensadora e crítica marxisista.
No imaginário popular brasileiro, a Amazônia é quase uma ficção, um lugar representado por imagens de animais exóticos e populações que moram “no fim do mundo”. O “fim do mundo” era também o limite possível de se enxergar na época dos grandes navegadores que ousavam atravessar o oceano em busca de expandir territórios e comércios internacionais. A literatura histórica está repleta de narrativas a cerca de um local que abrigava populações indígenas e densas florestas tropicais recheadas de perigos e aventuras. Atravessar o Atlântico era apenas a primeira etapa de uma aventura que deveria ter continuidade na posse da terra, legitimada por valores cristãos que concebiam a Europa como detentora dos valores morais dignos da civilização e por fim o “enfrentamento com o inferno verde”, primeiro na Mata Atlântica, na semeadura do que seria a colonização futura, depois na consolidação da ocupação do território ao norte do futuro local chamado Brasil.
Passados 500 anos, essa visão sobre a Amazônia permanece para alguns, incrementada pela distância territorial, e os altos custos de uma viagem à região. Para outros, a Amazônia ainda é um lugar a ser “conquistado” e o modelo agrícola que impõe cada vez mais espaço para o mesmo tipo de produção, busca uma expansão que não respeita os limites da floresta.
No mito da criação de diversas nações indígenas, existe a narrativa do grande encontro entre irmãos. Lideranças indígenas como Davi Yanomami e ativistas como Ailton Krenak, falam da expectativa que sempre houve da volta do irmão, o branco, aquele que saiu e um dia voltaria. Ao se referir à chegada dos portugueses e espanhóis a partir de 1500 e o encontro desastrado com as populações indígenas do continente americano, Krenak reafirma o sentimento de expectativa. “Para muitas populações da Amazônia, o 1500 ainda vai acontecer, e a atual conjuntura de relações com a natureza não é muito diferente de 400 anos atrás, exceto pela maior capacidade tecnológica do branco, o que nos permite pressentir que esse encontro pode ser ainda mais desastroso que o anterior”.
Nessa linha do tempo, que muitas vezes se torna uma linha divisória de interesses e projetos, pequenos pontos de interseção são criados em intervalos de gerações, numa tentativa de interação ou mesmo de convergência que só é quebrada quando interesses conflitantes se expandem e explodem esses pontos, deixando essa linha suspensa no ar, em busca de uma outra intermediação. O exemplo contemporâneo mais contundente foi a organização social e política dos trabalhadores extrativistas do Acre, liderados por Wilson Pinheiro e Chico Mendes, assassinados em uma mesma década.
Wilson Pinheiro e Chico Mendes são filhos de uma mesma tradição. No campo do trabalho, herdaram de seus antepassados a tarefa diária de sair em busca da extração do látex para a produção da borracha nativa. Tradição com mais de um século que só prosperou pela combinação quantitativa de árvores concentradas em algumas partes da região Amazônica, com enorme capacidade de produzir látex – e de mão de obra barata e disponibilizada pela seca e miséria nordestinas, responsável por uma enorme migração de homens para a Amazônia, em busca de riqueza ou uma vida melhor. Mas por trás dos gráficos de produção e aumento dos lucros no comércio internacional, existe uma responsável maior pela geração da fortuna obtida pelos Barões da borracha: a tradição cultural de vivência e relacionamento com a floresta, onde Wilson Pinheiro e Chico Mendes buscaram os elementos essenciais para os fortalecimentos dos argumentos políticos e ambientais que consolidaram o projeto político dos seringueiros nas décadas de 80 e 90.
Quando Wilson Pinheiro se viu cercado por batalhões de peões de derrubada empunhando motos-serras, percebeu que não havia outra saída a não ser resistir. Mas o confronto físico foi superado pelo confronto de palavras simples e diretas. Ao apresentar aos peões – trabalhadores contratados – o argumento inquestionável de que ao derrubarem madeiras nobres, para a implantação de pasto para gado, estavam derrubando também árvores que representam a sobrevivência dos seringueiros, Wilson Pinheiro estabelecia o conflito de interesses, mas usava como argumento, a base cultural e social de seus antepassados. Ao explicitar que seu povo vivia do extrativismo, colocava o confronto em outro patamar, legitimando em sua essência, a posse da terra, que a partir daquele momento se tornava clara até mesmo para os peões de derrubada. O impasse foi momentaneamente interrompido com seu assassinato, de forma covarde, dentro do sindicato, com um tiro pelas costas, na noite de 21 de julho de 1980. O simbolismo do ato covarde do tiro pelas costas, que seria repetido oito depois na tocaia que assassinou Chico Mendes em 22 de dezembro de 1988, mostra a impossibilidade do diálogo de projetos diferentes, mas essencialmente entorna em nossas vistas a incapacidade de perceber e respeitar a base cultural dos povos que vivem e habitam a Amazônia. Sintomaticamente, os arquivos iconográficos dos centros culturais das duas principais capitais da região, Manaus e Belém, se esmeram em mostrar as transformações urbanas das duas cidades, causadas pelos recursos oriundos da borracha. A figura humana do seringueiro só aparece em imagens de subordinação a um “patrão”, e como elemento da cadeia de comercialização do produto borracha. O tecido social, as relações humanas dos seringueiros, os hábitos e costumes que permitem a vida na floresta desaparecem da catalogação visual para permanecerem no imaginário cercado pelo véu do exótico.
Chico Mendes representou um encontro histórico, entre a comunidade científica que mal começava a entrar na floresta tropical e a entender seus códigos, cores, cheiros e sons e o conhecimento tradicional adquirido pelos povos da floresta, ao longo de mais de um século e realizado no dia a dia, através de varadouros, caminhadas e a exposição constante do humano à biodiversidade representada pela floresta tropical. Até o início da década de 80, o mundo científico e especialmente o olhar europeu, enxergava a floresta Amazônica com uma grande dama, no auge da sua maturidade, mas já entrando na sua linha descendente. Uma visão que se baseava em aspectos das florestas temperadas da Europa e que não percebia que a riqueza da floresta tropical está não apenas nas enormes árvores da região – sugerindo ao mesmo tempo o auge e o fim de uma era – mas também nos microorganismos e pequenas espécies que habitam solos, raízes, cascas e que lutam diariamente pela fonte de luz, o sol que nos alimenta a todos. De uma certa forma, a atividade extrativista da Amazônia recebe o mesmo conceito de algo que foi superado pelo processo de modernização tecnológico e produtividade, demandados pelo comércio internacional e expandido pelo processo de globalização. Se por um lado, a comparação de produtividade e modernização entre os seringais da Amazônia, especialmente os do Acre, com os seringais plantados da Malásia, apresenta uma diferença real que favorece os asiáticos, por outro, esconde a base cultural e social que permitiu à comunidade científica começar a dar os primeiros passos no entendimento das florestas tropicais. Está comprovado que qualquer estudo ou pesquisa de campo, se realiza de forma 6 vezes mais rápida se tiver como parceiro algum trabalhador extrativista atuando como guia ou mateiro. E esse guia não atua apenas no reconhecimento visual da espécie mas também das atividades que aquela espécie realiza dentro do mundo florestal. Esse conhecimento é adquirido pelo mesmo método da experimentação realizado nos laboratórios, mas essencialmente pela observação feita por gerações de extrativistas morando na floresta.
Wilson Pinheiro intuiu a necessidade de preservação do extrativismo e Chico Mendes percebeu que o isolamento da atividade e nítida falta de conhecimento por parte daqueles que chegavam do sul do país derrubando árvores para a feitura de pasto para gado, eram fatores a serem superados por ambas as partes. Chico se propôs a fazer a intermediação e buscou a visibilidade possível através de parcerias no campo da militância ambiental. Poderia até morrer mas, não ficaria enterrado no silêncio que cobria de esquecimento, a morte de Wilson Pinheiro. No entanto, para o sucesso do projeto era necessário que os elementos da floresta aparecessem e fossem ensinados também para os que chegavam com o mesmo espírito de 1500, “desbravando, conquistando e dominando o inferno verde”. Mas a primeira tarefa era fazer o dever de casa, ou seja, organizar social e politicamente aqueles trabalhadores e dar ordem de importância àquele conhecimento tradicional, centenário e profundo porém, tão disperso quanto as árvores da floresta que servem de sustento aos extrativistas. Esse sentimento fez nascer aquele que talvez tenha sido o mais importante projeto de educação colocado em prática no país, na década de 80, o Projeto Seringueiro de Educação e Saúde, base real do conflito de idéias e projetos que levou ao extremismo do assassinato de Chico Mendes.
Após a luta de resistência na década de 70, contra a chegada dos chamados “paulistas” – fazendeiros e investidores que chegavam à Amazônia em busca de terra para implantação de pecuária extensiva, recebendo incentivos fiscais do governo militar – e a consolidação da posse da terra, era necessário ir aos poucos quebrando os elementos que tornavam o seringueiro um trabalhador sempre dependente de um capitalista momentâneo em busca de lucros momentâneos. Fornecedor da matéria prima para a indústria transformadora, principalmente para pneumáticas, o trabalho diário do seringueiro sempre foi a parte mais baixa da linha de remuneração, embora o coletivo do trabalho tenha gerado enormes fortunas. Mas habitando o fundo da floresta e dependente de fornecedores de produtos manufaturados que ao mesmo tempo eram os compradores do resultado do seu trabalho, o seringueiro sempre se viu na situação de ter sua borracha depreciada na hora da venda mas, comprando por valores muitas vezes acima do mercado, aqueles produtos básicos que não extrai da floresta: roupas, café, açúcar, querosene, pólvora para a espingarda de caça, etc.. E um forte aliado dessa situação de desequilíbrio de forças, foi o analfabetismo, que impedia que o seringueiro pudesse ter uma noção maior de como funciona o comércio e quais armadilhas deveria evitar. Nas palavras da antropóloga Mary Allegreti, “Durante gerações, o analfabetismo contribuiu para consolidar a idéia de que o mundo era dividido entre “patrões” e “fregueses”, reproduzindo uma estrutura social desigual e injusta. Para Chico Mendes, dois fatores eram os responsáveis pela ausência de escolas nos seringais: se soubessem ler, os seringueiros poderiam entender a contabilidade e questionar a exploração a que eram submetidos; e manter uma criança na escola significava retirá-la do processo produtivo em que era envolvida desde muito cedo. Nesse contexto, levar a educação para o seringal passou a ser o símbolo da verdadeira libertação dos seringueiros em relação ao antigo sistema, e de uma efetiva autonomia frente aos patrões”, diz Allegreti. “Mais que entender o código da leitura, da escrita e das contas, construir uma escola representava o início de um novo momento na vida daquelas pessoas. Tão forte quanto o significado da escola, era o controle sobre a comercialização. Liberdade também significava poder vender e comprar de quem oferecesse melhor preço. Logo que a defesa da posse da terra se tornou uma atividade consolidada entre os seringueiros de Xapuri, sob a coordenação direta e ativa do sindicato, Chico Mendes decidiu enfrentar os dois símbolos do controle dos seringalistas sobre os seringueiros: a autonomia na comercialização e o acesso à educação. Essa foi a razão principal da criação do ‘Projeto Seringueiro”, completa Allegreti. Quando conheceu Chico Mendes, Allegreti já tinha feito um vasto estudo sobre a estrutura social dos trabalhadores extrativistas e viu que Chico Mendes buscava os caminhos que pudessem tornar o seringueiro, um trabalhador autônomo. Mary Allegreti conta que Chico Mendes sempre considerou a ausência de escolas nos seringais como um dos elementos centrais do processo de dominação dos seringueiros pelos patrões.
O Projeto Seringueiro teve como espinha dorsal, a cartilha “Poronga”, nome retirado da lamparina que os seringueiros usavam no passado para trabalhar de madrugada, quando a temperatura é amena e o látex não coagula com a rapidez do calor do meio dia. A cartilha foi fortemente influenciada pelos princípios educacionais pregados por Paulo Freire, trazendo para as suas páginas os elementos da floresta e do dia a dia do seringueiro. Dessa forma, a base cultural se unia fortemente ao princípio educacional, que instituía uma leitura crítica da situação em que o seringueiro vivia, permitindo que este encontrasse entre os alunos adultos e crianças, signos e percepções que deram ao seringueiro uma noção maior de organização social e política.
Ao unir a base cultural de fortes estruturas sociais, com a politização que permitia organizar a cadeia de produção e intervir ativamente no mercado e no comércio dos dois principais produtivos extrativistas: a borracha e a castanha do Pará, o Projeto Seringueiro construiu as bases de um projeto sólido, inspirado nos elementos da floresta, nos princípios de convivência social extraídos nas reservas indígenas e na noção de coletivo, que logo buscou uma Aliança dos Povos da Floresta.