Quem sou eu

Carlos Carvalho – ccarvalho.festfotopoa@gmail.com

Sou fotojornalista há 26 anos, sempre de forma independente. Atualmente sou fotógrafo documentarista com trabalhos realizados em longo prazo. Descobri a maravilha da mídia digital e estou aqui, fuçando. Meu corte é sempre social e não há como não se posicionar. Quero escrever, publicar minhas fotos, matérias, resportagens e dar minhas opiniões. E espero retorno. Abraços.

Do instante decisivo à decisão do instinto

Se Robert Capa estivesse vivo, com certeza teria adaptado seu axioma fotográfico: “se sua foto não é suficientemente boa, é porque você está na redação, longe da vida e a vida não se resume a esperar um desastre espetacular, um assalto cinematográfico ou a mais uma crise do capitalismo que vai encher a 1ª. página; deixe isso para os reporteres-cidadãos e seus celulares”.
Capa pisou em uma mina terrestre, uma tecnologia de morte – que se esconde do olhar atento de um soldado e da subjetividade concreta de um fotógrafo – que o impediu de ver a tecnologia do mundo de hoje e a liberdade que ela proporciona à fotografia de informação. Tomou a decisão de avançar na frente da linha de frente dos soldados que caminhavam em campo minado na Indochina – Vietnã. Pisou no espaço de um tempo interrompido pela expansão violenta do átomo. Átomo que ainda se expande em Ruanda, Afganistão, Irã.
Capa teve um “aluno” dedicado a outros passos. Segundo Henri Cartier-Bresson foi Capa quem lhe chamou a atenção para a “falta de compromisso” dos surrealistas e o convenceu a realizar reportagens fotográficas e ele o fez. Muitas e maravilhosas. Mas guardou dentro de si o espírito surrealista que o permitiu ser livre dentro da objetividade de informar, o salvou do rigor bressoniano e deu a ele a régua e o compasso da fotografia contemporânea há 50 anos. Ao recolher sua Leica e voltar ao grafite do desenho, Bresson aguardou que o fotograma da fotografia contemporânea percebesse seu esforço em dar “o pulo, o salto seguinte”. Cansado da arte – de informar e ser esteta – que tinha nele próprio a maior referência do século XX voltou à meditação do seu grafite. Este salto encontra espaço de representação em uma foto de 1932 que “quebra” o rigor bressoniano e desmoraliza o “instante decisivo” propagado tanto pelos seguidores do instante decisivo quanto por seus detratores. No momento da foto, Bresson está em um espaço aberto, sem nada que o impeça de seguir o “rigor” de uma lógica renascentista que o faria compor uma imagem horizontal. A foto é vertical. Os bressonianos dirão que com o uso da lente normal essa foto não seria feita na horizontal. Não seria? Esse debate não é técnico e sim do campo da estética. Foi o instinto – guiado pela bagagem cultural de milhares de anos de Bresson e pela mala aberta para a imagem contemporânea que o levou à decisão de “ali se posicionar”, 80 anos antes de hoje. Bresson salta junto com o homem e com a bailarina ao fundo, na poça da arte contemporânea. O milimétrico encontro do homem saltador e seu duplo refletido, toca no infinito daquilo que ainda viria a ser. Ali Bresson faz seu auto-retrato definitivo. Tudo que ele faria depois aprofunda este salto e esgarça o tempo do “instante decisivo”, aproximando a fotografia de informação de todas as possibilidades de expressão, inclusive as contemporâneas. Quando aquele fotograma foi colocado no banho do revelador encontrou a estética da segunda metade do século XX já sendo fixada enquanto seu filme tirava os fotogramas do século XXI para dançar.
A Revista Mesa [de] Luz nasce inspirada por este salto. Buscar a vida e a informação para contar histórias sem fazer da forma, conteúdo. E mergulhar no mar de possibilidades da tecnologia multimídia, sem perder de vista que é o autor que confere à fotografia seu caráter de realidade e concretude de expressão.

Carlos Carvalho, setembro de 2009.