Nove de outubro de 2006: O dia em que a humanidade esgotou seu orçamento ambiental, ou Por Quem o Sinos se esgota. Texto e fotos de Carlos Carvalho
No dia 9 de outubro desse ano, os seis bilhões de habitantes do planeta Terra liquidaram as reservas de “capital ecológico” para o ano de 2006. De outubro a dezembro, vamos entrar no vermelho ambiental. O efeito estufa e as mudanças climáticas são as conseqüências mais visíveis da relação que o Homem estabeleceu com o planeta e até o fim do ano mais peixes, florestas, água, e colheitas massificadas serão realizadas, sem que o planeta consiga repor o estoque. O homem já quebrou muitas economias. Agora se prepara para quebrar o equilíbrio ambiental.
O conceito de “orçamento ambiental e capital ecológico” foi desenvolvido em parceria pela fundação inglesa New Economics Foundation (NEF) e a organização americana Global Footprint Network, com o objetivo de mostrar claramente o prejuízo ambiental causado pela industrialização maciça que sofre o planeta. Segundo as organizações, até 1986 a humanidade conseguiu usar seu capital ecológico dentro do “orçamento” normal, mas depois de 86, passou a gastar mais do o planeta é capaz de produzir, gerando déficits cada vez maiores. De acordo com o relatório da NEF, em 1987 o capital ecológico acabou no dia 19 de dezembro. Em 1995, as reservas se esgotaram no dia 15 de novembro e desde então a humanidade consumiu mais alimentos e cortou mais árvores do que o orçamento permitia. Esse ano a linha vermelha ascendente começou no dia 9 de outubro. Hoje, já estamos gastando mais do que o planeta pode produzir sem prejuízo do equilíbrio ambiental.
Estamos já em meio a uma grande crise ambiental, só não enxerga quem não quer ver. Não se trata de preservar o futuro para os nosso filhos ou netos mas sim viabilizar o presente. Os cientistas são unânimes em explicitar a grandiosidade do desastre eminente. As lideranças políticas mundiais, Bush à frente, ignoram totalmente os avisos científicos. "O relatório tenta visualizar que vivemos muito acima de nossos meios, tirando do cartão de crédito ecológico cada vez mais cedo. É como o que acontece nas finanças, em breve não se poderá pagar a dívida e a Terra entrará em falência", disse um diretor de políticas da NEF. Na esfera política, onde o ambiente de decisão está atrelado aos interesses econômicos, a surdez parece ser maior ainda do que a falta de visão ambiental.
Mas e no plano da sociedade organizada?
Pouco antes do esgotamento do capital ambiental mundial para 2006, o Rio Grande do Sul deu a sua contribuição. Na manhã de oito de outubro de 2006, o rio dos Sinos amanheceu coberto por um tapete de peixes mortos. Foi a Fundação Martim Pescador, que faz um trabalho de educação ambiental no Vale do Sinos, quem deu o alarme. Manchete nacional, espanto local e a busca pelas razões da mortandade e seus responsáveis. É verdade que a ocupação industrial ao longo do Rio Sinos, em especial a indústria de couros, vem prejudicando sistematicamente a qualidade do rio. Mas ao dar início aos trabalhos de limpeza do rio e a retirada das cerca de 80 toneladas de peixes mortos, o setor ambiental da Brigada Militar do RS instalou cercas flutuantes para impedir a passagem dos peixes para os locais de coleta de água para consumo humano. E junto com os peixes mortos, surgiu todo o lixo urbano que é despejado no rio. O impacto inicial de chegar à beira do rio e ver o tapete de peixes mortos cobrindo o espelho d’água, foi intensificado pela quantidade de lixo que disputava espaço no cenário de morte. Em determinados locais, era difícil distinguir entre garrafas PET ou peixes mortos.
A seqüência de fatos que seguiram após o crime ambiental no rio dos Sinos, tem o mesmo odor espalhado na região, resultado da decomposição dos peixes mortos. Em uma plenária organizada pelo Comitê Rio dos Sinos, na universidade Unisinos no dia 19 de outubro, o presidente da Fundação Estadual de Proteção Ambiental – FEPAM, Antenor Ferrari, anunciou os nomes da empresas poluidoras do rio e as multas que estavam sofrendo em função do crime ambiental: “Gelita South América” e “Ultresa”, ambas sediadas em Estância Velha, e a “Três Portos”, sediada em Esteio, flagradas pelo descumprimento de normas ambientais.Mas ao mesmo tempo, chegavam à plenária, liminares da justiça que davam a outras três empresas - duas de Estância Velha e uma de São Leopoldo - o direito de não ter seus nomes divulgados. As pessoas presentes à plenária reagiram exigindo o direito de saber que são os responsáveis industriais pelo crime ambiental.
Segundo o relatório da FEPAM apresentado na plenária, a causa da mortandade dos peixes no Arroio Portão em conseqüência do acidente ambiental na bacia hidrográfica do Rio dos Sinos foi falta de oxigênio, ocasionado por excesso de lançamento de carga orgânica despejada no rio, com predominância doméstica. A divulgação foi feita pelo diretor presidente da Fepam, Antenor Ferrari e pelo diretor técnico Jackson Muller. Se as empresas criminosas têm que pagar pelo seu ato de descaso com o meio ambiente, é também conveniente que a sociedade busque com urgência, mecanismos que impeçam as pessoas de usarem o Rio Sinos como lixeira particular.
No dia 24 de outubro, técnicos do Departamento de Laboratórios Divisão de Química da Fepam fizeram uma inspeção de barco no trecho do rio entre a ponte da BR 116 e o local da mortandade de peixes, a jusante do Passo do Carioca. Foram coletadas amostras de água, sedimentos e peixes e medidos os parâmetros de campo. Estas análises já mostram uma diminuição da qualidade da água no sentido das nascentes para a foz.
Os parâmetros de oxigênio dissolvido continuam apresentando níveis baixos em algumas áreas e visualmente verificou-se baixo nível de água na bacia. Os técnicos também constataram a contribuição de resíduos industriais e urbanos com o despejo de esgoto sem tratamento ao longo de todo o percurso inspecionado.
Segundo eles, isto pode indicar que a capacidade de suporte do rio pode estar sendo ultrapassada. As medições do campo demonstram que as condições desfavoráveis permanecem, com a conseqüente degradação das condições de sobrevivência de vida aquática. O capital ambiental no Vale dos Sinos esgotou. E não há onde pedir empréstimo. É preciso racionalizar e pagar o passivo.
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