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29-Mar-2007

A Idade da hipocrisia

 

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Na edição número 43, de 1 de novembro de 2006, ou seja, na semana do segundo turno da eleição presidencial, a revista Veja, na sua seção Carta ao leitor, publica uma charge do gaúcho Santiago que, no melhor estilo do fotojornalismo, resume a conjuntura atual e a relação da mídia com o presidente Lula.

Mas duas questões devem ser colocadas para os leitores da IsoPixel. A charge foi publicada primeiro, no Jornal do Comércio de Porto Alegre, onde Santiago é colaborador. Incomodada com clareza da mensagem, Veja ligou para o chargista pedindo autorização para publicar na Carta ao leitor. Desconfiado, Santiago negou a autorização sob o argumento de que não quer ver seu trabalho relacionado com uma revista que faz o jornalismo que faz. Não satisfeita, Veja publicou assim mesmo, “na marra”, para usar o jargão mais popular. Mas não parou por aí. Na dita carta ao leitor, logo abaixo da charge, começa dizendo que .....“piadas são só isso – piadas. É recomendável então não leva-las à sério, até por uma questão de manutenção de juízo”....

À truculência de publicar sem autorização, juntou a falta de elegância com a profissão do chargista, primeiro com o próprio Santiago, motivo de sua ira, disfarçada no texto que se segue, contando as maravilhas de ser “Veja”. Mas a deselegância atingiu um dos mais importantes pensadores brasileiros, que na página 48 faz muitas piadas sobre tudo e todos, inclusive sobre si próprio ao colocar a manchete “Satisfação absoluta, ou seu dinheiro de volta”. Seria interessante Veja esclarecer o que acha das piadas de Millôr Fernandes, se elas também não devem ser levadas a sério. Ou será que algumas piadas são mais sérias que as outras? Ou mais caras?

Mas Veja se utiliza da charge para dizer aos seus leitores que o desenhista gaúcho sofre do mal de ser petista e do equívoco de achar que Veja tem um posicionamento anti-Lula. E pede aos seus leitores que façam o exercício de trocar Lula por Collor e FHC que dá no mesmo....sic

Veja finaliza dizendo que “...fiscaliza o poder, denuncia criminosos que lesam a pátria, tudo a partir de um ideário sólido, imune às vicissitudes....” Mas seria bom que fizesse jornalismo. Já existem os TCUs, a Polícia Federal, e todo a estrutura do Estado para cuidar dos criminosos. Mais adiante, afirma que desse ideário “.....constam a defesa da democracia, da livre-iniciativa, da liberdade de expressão e opinião.....” Veja não deveria se incomodar com a opinião dos outros, sobre as opiniões que ela tem de todos, principalmente do presidente Lula. Fairplay não faz mal à saúde. Truculência sim.

Veja conclui que livre imprensa não é imprensa neutra e que o lado de Veja é o lado do Brasil. Se existe o mérito de Veja dizer que não é neutra, fica devendo a clareza ao lado de qual Brasil ela se posiciona. Mas dizer claramente, sem subterfúgios, vergonha ou sinismo. Existe uma pista na página 78 da mesma edição, quando um jogo de diagramação de página mostra bem qual Brasil é o “moderno” e qual Brasil é o “atraso” e obviamente de qual Brasil Veja está ao lado.

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O que perturba a Veja é que ela vai ter que agüentar por mais quatro anos, a decisão da sociedade brasileira, principalmente daquela parte dita do “atraso”, de manter Lula na presidência. O ideário de Veja não serviu, não influenciou a sociedade brasileira e não a fez mudar de presidente. Veja se juntou à Alckmin no panelão de chuchú, para onde a sociedade brasileira mandou toda a chamada grande imprensa. Manchetes sobre manchetes, matérias sobre matérias não convenceram a sociedade brasileira de que o PT é a sucursal do inferno e Lula, o capeta da modernidade. Não foi possível convencer os “atrasados” de que o PSDB é o sonho de todo candidato ao posto de anjo. Principalmente quando os acusadores de agora são os ladrões de ontem, e a mídia de hoje tem o mesmo cheiro. A chamada grande imprensa deve à sociedade brasileira, o nome, sobrenome, endereço e o cargo dos políticos que foram comprados para votarem a favor da re-eleição de FHC. Não faltam dados nem coragem. Falta vergonha na cara.

Essa foi uma eleição onde mais do que nunca a imagem foi utilizada para definir posições. Uma das grandes vantagens de uma eleição, quem sabe a única, é forçar os atores políticos a se posicionarem. Não se vira Geraldo da noite pro dia, mesmo que a maquiagem seja boa e convincente. Mesmo assim, todos percebem que é maquiagem e aí a decisão é absolutamente pessoal.

A imagem que ficou de Alckmin e do PSDB, é a imagem real, que sempre esteve escondida. Um partido voltado para a elite, cuja demanda de crescimento é para aumentar os lucros dos que já detém 80% da riqueza desse país. O segundo turno foi sim uma benção para o Brasil. Em vinte dias, dois projetos absolutamente distintos se apresentaram diante da televisão em debates que, afora a truculência, a falta de respeito e o sinismo, possibilitaram que os projetos ficassem claros. E pela primeira vez, um candidato viu sua maquiagem derreter em público e seus votos migrarem para o adversário.

Mas não foi só a maquiagem do candidato tucano que se desfez. No mesmo ralo foi a hipócrita neutralidade da chamada grande mídia. Durante meses, os principais jornais e revistas do país, no quesito circulação, martelaram escândalos contra o candidato Lula e participaram de cenas quadrilescas com delegado de polícia federal, com direito a gravações e ainda serem chamados de ladrões pelo próprio “Dr”. Delegado..... Delegado Edmilson Bruno – Não, vou chegar para o superintendente e falar, “doutor, fui furtado, mas já falei com os repórteres, ninguém sabe de nada, mas eu to desconfiado, sabe como é, não dá pra confiar em repórter, não dá mesmo”. Agora eu conto com vocês, porque podem abrir uma sindicância contra mim, um processo.  (clique aqui para ouvir a íntegra da gravação)

 

O Delegado Edmilson Bruno tem razão em uma coisa: realmente não dá para confiar em repórteres que tramam notícia, escondidos nas esquinas, que aceitam serem chamados de ladrões para conseguir um “furo” de reportagem e ainda finalizam a quadrilagem acertando com o “Dr. Delegado” a hora em que a notícia vai sair.

Passada a eleição, incontestável, indiscutível, ódios inconformados ainda pretendem dividir o país mais do que ele sempre esteve. Mas a divisão proposta pela grande mídia beira o fascismo. No Brasil da grande mídia, o país está divido entre o atraso e a moderno. O atraso obviamente são os pobres. E são tão atrasados que “pertencem ao Lula”. Para a grande mídia Lula venceu a eleição não pelos méritos do seu governo, mas porque implantou um método de comprar votos, dando comida aos pobres. Mas péra lá, quem nasceu antes, Lula ou a pobreza?  Não é Lula, o próprio, um sujeito que para fugir da seca e da fome, saiu do interior de Pernambuco para vir a São Paulo e se tornar mais um ser vivente e sobrevivente? Ou o problema foi ele se infiltrar na elite paulista e infernizar o sono dos “modernos”? Mas, e antes de Lula, quem comprava os votos dos pobres? Não querem mais brincar? Agora a brincadeira perdeu a graça? Perguntem a quem tem fome, do que eles acham graça.

Os leitores da IsoPixel devem estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com fotojornalismo e fotografia documental. Explicamos. Não existe fotojornalismo sem jornalismo e não existe jornalismo imparcial.

 

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