Devemos, inicialmente, perceber o processo fotográfico da câmera digital para, em seguida, pensarmos na opção de trabalho com os formatos Raw e Jpeg.
A câmera fotográfica dita digital não possui nada de revolucionário ou inovador na sua origem, simplesmente associa o princípio da fotometria, do final do século XIX, com o da impressão gráfica da década de 1930. Esses eram, sem dúvida, inovadores e permitiram avanços importantíssimos, na rapidez da captura fotográfica ou na reprodução gráfica de qualidade. O primeiro, relacionou a escala de tons, os 256 que o olho humano percebe, com a intensidade elétrica das ondas de luz refletida pelos objetos. O segundo, o haftone que decompõe a fotografia numa trama de pontos pretos e brancos que são “embaralhados” pelo olho humano, restituindo a sensação do tom original.
Vejamos com um exemplo: uma máquina digital com 8 Mp, possui oito milhões de minúsculos fotômetros que designam, simultaneamente, uma intensidade elétrica para cada respectivo ponto de luz refletido. Como os pontos mais claros produzem uma voltagem maior que os pontos mais escuros, os circuitos de conversão do analógico para o digital da câmera transformam esses sinais de voltagem linear em valores numéricos. Assim, toda captura digital, em qualquer tipo de equipamento, realiza, num primeiro momento, um mapeamento numérico pela correspondência de intensidades das luzes refletidas pelos objetos. Dependendo do tipo de eletrônica que dispõe a máquina - e não há nenhuma equivalência com o seu preço ou com a sua capacidade e tamanho máximo de gravação - as imagens são capturadas com 12 ou 14 bits. Se esses dados são gravados em 12 bits, cada pixel possuirá 4.096 níveis diferentes de intensidade ou, então, se o são em 14 bits terão 16.384 valores distintos para cada pixel. Mas, se optarmos por trabalhá-los com 8 bits, não devemos esquecer que cada um deles possuirá 256 valores de intensidade, ou os mesmos que o algorítmico olho humano percebe.
Como os sensores (o conjunto dos “minúsculos fotômetros”) não são capazes de registrar diferenças de cor, ao optarmos pelo armazenamento no formato Jpeg, o software da câmera, num segundo momento, adiciona filtros vermelho, verde e azul sobre cada pixel do sensor. Usando um algoritmo complexo, os valores que cada pixel registra são comparados aos vizinhos para designar o valor cor, por serem as ondas vermelhas mais longas que as azuis que, por sua vez, mais curtas.
De maneira breve, acabo de descrever o processo de captura Raw, que designei como primeiro momento, e o processo de gravação em Jpeg, o segundo momento, ou seja: toda e qualquer máquina dita digital dispara em modo Raw. Se decidirmos guardar a imagem como Jpeg estamos encarregando o programa incorporado na câmera, variável para cada fabricante, a conversão do Raw para o Jpeg, ou do preto e branco da captura inicial para a incorporação de cor (do fabricante).
Tentarei ser mais explícito: no tempo do filme, se fotografássemos o mesmo objeto com a mesma luz, com o mesmo filme e com diferentes marcas de câmeras, a diferença nas diversas e repetidas fotografias reveladas seriam ínfimas ou relacionadas à precisão mecânica dos obturadores e às diferentes qualidades óticas. Por outro lado, se repetirmos essa mesma experiência nos dias atuais e no formato Jpeg, observaremos diferenças acentuadas de tons e saturação, de brilho e contraste das cores, fruto das apostas e escolhas de cada fabricante.
Prós e contras
Se a opção for a de guardar a imagem no formato Raw, a câmera criará um “arquivo cabeceira” (header file) que contém todos os seus ajustes no momento do disparo: o filtro sharpen, os ajustes de contrastes e saturação, a temperatura de cor, o equilíbrio dos brancos etc. Esses dados, contrariamente ao formato Jpeg, não alteram os dados da imagem, mas simplesmente acompanham o arquivo da imagem “crua” (ou raw). Esses “metadados”, ou os dados de ajustes da câmera, estão no cartão de memória e paralelos a imagem. Se a opção for guardar a imagem no modo Jpeg, esses ajustes são incorporados à imagem, reduzindo para 256 os 16.384 valores distintos para cada pixel capturados originalmente pela câmera.
Sem dúvida, os arquivos no formato Jpeg são menores e mais leves (necessitam de menos memória Ram). Em muitos casos, penso em hot news, a qualidade Jpeg é mais que suficiente, tendo em vista a qualidade dos impressos. Há, também, alguns fotógrafos que não têm tempo ou inclinação para um tratamento posterior no “laboratório digital”, além do fato que muitas câmeras são lentas no modo Raw. Porém, como os arquivos Jpeg quase não necessitam de ajuste posterior, quando esses se fazem necessários temos que ter muito cuidado, pois as perdas com a compressão inerente ao formato serão muitos sensíveis. Por exemplo, no formato Jpeg existem 37 níveis de tons médios. No Raw em 12 bits temos 512 níveis para o mesmo tom médio (valores oscilando entre 120 e 130 nas informações numéricas de cor).
No modo Raw, os Plug-ins dos diversos programas, abrem somente o apêndice em que estão inscritos os ajustes da câmera. Porém, esses dados etiquetados (tagged) estão livres para serem modificados hoje ou no futuro, tal uma “etiqueta autocolante de papelaria” que pode, a qualquer momento, ser substituída.
De todos os ajustes digitais, o mais importante e, ao mesmo tempo, o mais destruidor é o equilíbrio de brancos. Nos arquivos Raw, se a câmera estiver em modo automático de equilíbrio, podemos obter qualquer temperatura de cor e o conseqüente equilíbrio de branco depois do disparo, visto que a informação é paralela e não se incorporou ou degradou a imagem. No modo Jpeg, uma vez o arquivo convertido a um espaço de cor e aplicado um valor gamma, não poderemos estabelecer um novo equilíbrio de branco de forma apropriada, diminuindo em muito as possibilidades de intervenção nas matizes das cores.
Concluindo: há quem compare as imagens Raw, ou aquelas que contêm exatamente o que o chip de imagem registrou, à uma película exposta que não foi revelada. Adicionaria somente que se a revelação é uma parte do ciclo da fotografia - uma vez feita não é possível ser refeita (estou me lembrando dos processos de rebaixamento). Estamos diante de um filme que pode ser revelado diversas vezes ou revelado hoje e guardado a espera de um novo revelador (plug-in) mais potente em algum momento do futuro.
Zeca Linhares
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