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Terras de Preto Texto e Fotos J.R. Ripper  Nas Terras de Preto, em Alcântara, no Maranhão, a lua, sensual, pede licença pra expandir sua luz, como saia rodada no terreiro da noite. Aconchegante, deita seus olhos de brilho e mistério no requebrar das negras de vestido colorido, arrodeando os tambores dos negros tocadores e cantando seus cantos de bocas noturnas. Até a noite silencia pra escutar o tambor de crioula e o refrão popular: “Afinado a fogo, tocado a murro e dançado a coice”. Alcântara é terra de preto, terra de caboclo, terra de santo, de santa, de santíssimo, terra das sesmarias, dos herdeiros, dos parentes, terras da pobreza. A dança dos pretos é a dança do povo dos tempos dos escravos, o tambor dos negros tem voz africana e geme um canto de protesto, de injustiça. É o grito livre que arranca sangue suor e história de africano e brasileiro. Dança e canto seguem até de manhã, quando a lua arruma parceiro pra dormir e o sol, ciumento e majestoso, se descabela e joga fogo de luz no corpo sensual do negro Vanderlei. Em sua dança solo, ele canta o canto dos meninos negros que vão pescar no mar de Alcântara, o peixe de cada dia. Os rapazes das jangadas coloridas da localidade de Mamuna correm nas ondas pra encontrar uma comunidade com escola pra estudar. 
Naquela região, estudar é difícil. As escolas são distantes e mal aparelhadas, o ensino é deficiente. Acostumada à luta, a população pobre resiste. Enfrentam todos os obstáculos, entre eles os argumentos militares que priorizam os projetos relacionados à base aeroespacial, em detrimento da educação. Fortes, os negros das comunidades quilombolas aprendem a resistir, no tambor da crioula, no estudo da sala de sapê, nas aulas do ABC, na quebra do coco do babaçu, na roça e na pesca. Sempre com muito respeito pela natureza e seus seres. A ecologia, naturalmente, faz parte de sua vivência e de sua educação. Dentro desse espírito, os quilombolas distinguem peixe de pescar e peixe que não é pra pescar: cardume novo o negro devolve pro mar, pra viver livre no lugar onde escolheu pra morar. 
Alcântara tem uma população de mais de 21 mil habitantes, segundo o Censo Demográfico feito pelo IBGE no ano 2000. Setenta e dois por cento da população vivem nas áreas rurais, espalhados em mais de 250 comunidades negras remanescentes de quilombos. Quase dois mil habitantes são pretos velhos com mais de sessenta anos. São os contadores de histórias, os poetas da resistência, os esteios das entidades. Os negros mantêm suas comunidades reforçadas na afetividade. Comunidades inteiras são parentes, mesmo sem serem do mesmo sangue como no parentesco tradicional. A árvore genealógica das comunidades negras ergue suas raízes e expande seus galhos na união social. Os territórios foram construídos de forma política e organizados socialmente. A afetividade e a solidariedade consolidaram os parentescos políticos. Alcântara é um território étnico que está ameaçado pela Base Aeroespacial que, desde 1980, já desapropriou, “para fins de utilidade pública”, 62.000 hectares de terra, mais da metade da cidade. Um total de 12.500 negros de 150 comunidades quilombolas está ameaçado. Alfredo Wagner, doutor em Ciências Humanas e Antropologia e perito do caso de Alcântara, explica as irregularidades e os perigos da base de lançamentos de foguetes: “A base de lançamento de foguetes de Alcântara não possui licenciamento ambiental para sua implantação e continua funcionando tal como foi delineada no período da ditadura militar. Em setembro de 1980, através do decreto 7.820, o governo do Maranhão declarou para fins de desapropriação uma área de 52.000 ha. para instalação da Base Espacial de Alcântara. Esta área foi ampliada em agosto de 1991, no governo Collor, para 62.000 ha, ou seja, abrange mais da metade do Município, afetando diretamente cerca de 150 povoados e 12.500 pessoas. Esta constatação inicial já é suficiente para caracterizar a postura colonialista, que menospreza os direitos das populações tradicionais, ignorando-as completamente. Haja vista que na elaboração do EIA-RIMA (estudo e relatório de impacto ambiental) em 1998, que foi indeferido pelo IBAMA, a área foi considerada como "espaço vazio". A despeito disso, em 1986/87, a base deslocou compulsoriamente 312 famílias de agricultores e pescadores para agrovilas concebidas erroneamente para um campesinato parcelar, que os militares afirmavam ser o mais "racional", enquanto que os deslocados praticam um sistema de uso comum dos recursos naturais. As agrovilas não correspondem assim às condições costumeiras de moradia, cultivo e pesca. As terras de areias quartzosas, onde foram implantadas, esgotaram-se rapidamente e mergulharam as famílias deslocadas numa situação crítica de tensão social e fome. Atualmente tornaram-se objeto da ação do programa Fome Zero”. Em 17 de junho de 1999, o Ministério Público determinou que fossem apuradas possíveis irregularidades no Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA). As comunidades remanescentes de quilombos continuam mantidas sob invisibilidade social e foi para dirimir dúvidas que a Procuradoria Geral da República autorizou, em 2002, a partir de convênio firmado com a Associação Brasileira de Antropologia, uma perícia de identificação étnica das comunidades quilombolas. Esta perícia foi elaborada pelo antropólogo Alfredo Wagner, concluída em setembro de 2002 e incorporada a processo que tramita na Procuradoria Geral da República. Wagner alerta ainda para as ilegalidades que são cometidas nas utilizações de acordos comerciais da Base Aérea de Alcântara. “Não obstante sua instalação contrariar os dispositivos jurídico-formais, a base tem sido objeto de iniciativas comerciais por parte do governo brasileiro, contrariando seus objetivos iniciais de instrumento de segurança nacional. Tem-se um desvio de finalidade”- diz ele. Em abril de 2000 foi firmado acordo de salvaguarda tecnológica com os Estados Unidos e, em outubro de 2003, foi assinado acordo espacial com a Ucrânia, visando ao aluguel da base para o lançamento comercial de satélites. Entre estes dois acordos ocorreu um trágico acidente na Base de Alcântara, durante simulação de lançamento de Veículo Lançador de Satélites, em agosto de 2003, provocando a morte de 21 técnicos. Alfredo Wagner explica que o CLA faz uso de combustível sólido, considerado altamente instável, à base de perclorato de amônia. Além do mais, sucessivas experiências de lançamento não lograram êxito. Apesar disso, verifica-se que não há estudos de impactos sócio-ambientais para avaliar os efeitos da ação do CLA. O perclorato de amônia, ao queimar, atinge uma temperatura superior a mil graus. Em decorrência de tudo isso, persiste um clima de insegurança na região e os povoados afetados acham-se mergulhados num certo pânico, sobretudo mediante os cogumelos de fumaça que caracterizaram as últimas explosões do acidente de agosto do ano passado. Para o advogado Aton Filho, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, que defende as comunidades quilombolas da região, o Centro de Lançamento de Alcântara fez surgir uma série de indagações no que diz respeito à questão ambiental. “É evidente que a instalação de qualquer grande empreendimento tem impactos graves sobre o meio ambiente, tornando necessários programas específicos e adequados para sua proteção e recuperação ou mesmo, no limite, determinando impeditivos da concretização daquele empreendimento. No que se refere ao CLA, a Lei n. 6938/81 tem sido apontada pelo próprio Ministério Público Federal como violada por aquele empreendimento, naquilo que determina a necessidade da realização de Estudos de Impacto Ambientais e Relatórios de Impactos Ambientais. Aponta o MPF que os EIA-RIMA elaborados e apresentados pelo Centro de Lançamento de Alcântara passam por alto os aspectos que dizem respeito ao contexto etno-histórico-arquelógico, afetando diretamente a cultura dos povos quilombolas que habitam a região. Essas omissões dos EIA-RIMA fornecidos foram diretamente questionadas no âmbito de ação civil pública ajuizada pelo MPF e que tem no pólo passivo a União, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA -, e a Infraero, responsável pelo projeto. Aton Filho explica ainda que o Ministério Público Federal questiona o EIA-RIMA no que diz respeito ao projeto do CLA, pois este não examina nem considera aspectos tão essenciais para a sobrevivência dos povos quilombolas quanto sua unidade sócio-cultural, uma consideração das terras por eles habitadas do ponto de vista de um território étnico e também a questão da viabilidade das agrovilas para as quais foram deslocadas as comunidades quilombolas já vitimadas pelos deslocamentos forçados. Mais recentemente, um olhar mais preocupado surgiu, em decorrência do acidente com um Veículo Lançador de Satélites (VLS), quando morreram técnicos e funcionários do CLA. Exames preliminares apontaram que o acidente decorreu da ignição prematura de dezoito toneladas de combustível sólido utilizado para a propulsão do engenho, o qual, em combustão rápida, apresentou os mesmos efeitos de uma explosão. Ainda que esse exame não tenha podido até agora determinar as causas da faísca que determinou a ignição prematura, uma questão se pôs desde logo evidente desmascarando uma nova e grave deficiência do EIA-RIMA - explica Aton Filho “É que a utilização dessas imensas quantidades de combustível sólido, semelhantes a explosivos, indica o risco para a população em seu armazenamento. E, ainda mais, impõe uma dúvida essencial sobre se esse material teria sido produzido no interior do Centro de Lançamento, ou se teria sido transportado de outro local. Se verdadeira a primeira hipótese, falso o EIA-RIMA que não examinou os impactos da instalação dessa unidade de produção do combustível sólido, desde os riscos de seu armazenamento aos impactos da utilização de produtos químicos em sua produção e avaliação da quantidade e deposição dos dejetos resultantes do processo produtivo. Sendo, porém, transportado o combustível, naquelas alarmantes quantidades que explodiram quando do acidente, teria sido omisso o EIA-RIMA quanto aos riscos e impactos de seu transporte e armazenamento. Sem contar, ainda, a preocupante dúvida sobre a existência de outros insumos e equipamentos tão agressivos ao meio ambiente quanto aquele explosivo combustível” – diz ele. Para Luis Antônio Câmara Pedrosa, advogado da Sociedade de Direitos Humanos-MA, Alcântara continua estacionada em termos de violações de direitos humanos e violações ambientais. “O que a gente nota é que não existe nenhum tipo de ação do poder público para minorar a situação de violação que foi instaurada ali. E no aspecto da própria permanência da Base Espacial, o que o Governo alega é que não há recursos pra poder trabalhar, inclusive, as propostas de reparação de impactos junto às comunidades. Então, as comunidades vivem como sempre viveram - agora com mais dificuldades, porque existe a Base de Alcântara - dependendo dos recursos da natureza, do improviso, pra poder sobreviver. Antes, se elas sobreviviam muito mais da pesca, hoje, muito menos. Estão tentando fazer carvão, estão tentando encontrar antigos lugares de roça, trocando por outros lugares, em outros povoados mais próximos. Há um impacto cuja reparação patrimonial é impossível se conceber. Sem falar nos inúmeros moradores dos diversos povoados que simplesmente foram embora porque desistiram de tanto sofrer para poder sobreviver, de tanto esperar dias melhores. Então, a situação ainda continua muito preocupante para nós, a gente navega contra todas as possibilidades jurídicas. Porque, na verdade, nós estamos lutando contra um grande projeto, contra razões de Estado que se colocam como superiores até aos direitos humanos; a gente se coloca contra um estado de coisas no Brasil, que é de considerar as pessoas pobres como não importantes no desenvolvimento econômico, no desenvolvimento de tecnologia.”. Alfredo Wagner explica a importância das mobilizações quilombolas na resistência aos despejos. ”O Movimento dos Atingidos pela Base de Alcântara, formado em 2001, empenha-se no reconhecimento das comunidades quilombolas pelo Art.68 do ADCT e na recuperação das terras perdidas através dos decretos desapropriatórios. A participação de seus representantes no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, evidenciou que se trata de uma situação análoga a muitas outras lutas travadas por populações tradicionais contra bases militares. Uma das situações mais divulgadas recentemente refere-se a 200 famílias esquimós da Groenlândia, que foram expulsas de seu tradicional território de caça 50 anos atrás para abrir espaço à expansão de uma base militar norte-americana. As famílias esquimós levaram o caso em agosto de 2003 à Suprema Corte Dinamarquesa solicitando a devolução de seus territórios”. Para Alfredo Wagner o acidente na base tem que fazer o governo repensar o projeto “Medidas urgentes fazem-se necessárias mediante o desastre ocorrido em 22 de agosto de 2003 com a explosão que resultou na morte de 21 técnicos e em impactos sócio-ambientais ainda não aclarados.” Segundo dados veiculados pela imprensa, o veículo lançador de foguetes, na hora da explosão, pesava 50 toneladas, sendo 90% combustível sólido. A explosão atingiu um raio de um quilômetro de diâmetro e destruiu grande parte da torre de lançamento. São desconhecidos os efeitos desta explosâo, cujo cogumelo de fumaça foi fotografado a 22 km de distância, desde a capital São Luís. “Esse tipo de combustível tem de ser mais discutido” – defende. Alfredo Wagner explica a importância de Alcântara como um território étnico: “Na área desapropriada há 152 povoados que se estruturam segundo diferentes planos de organização social. Abrangem tanto fatores econômicos quanto políticos, embora não possuam um plano de organização formal com associações constituídas legalmente. As relações são quase institucionais e remetem para uma situação de redes de povoados, implicando numa divisão de trabalho de serviços e de produtos interpovoados. Tem-se consolidado um sistema de trocas equilibradas entre povoados mais próximos ao mar e a igarapés maiores, que se dedicam principalmente à pesca, e povoados mais centrais ou distantes da beira e do porto, que se voltam principalmente para a agricultura. A reciprocidade positiva, com troca equilibrada de bens e serviços, consiste num sistema singular. Esse sistema, conjugado com a afirmação de uma identidade traduzida pelas denominações Terra dos Pretos, Terra de Santo, Terras da Santa, Terras de Santíssimo, Terras de Caboclo, Terras da Pobreza e outras denominações correlatas, como Terra Comum, Terra da Câmara, Terra da Nação, configura um território étnico. A idéia de comunidade remanescente de quilombos passa aqui por estes diferentes planos de organização social, que, entrelaçados, delimitam uma territorialidade própria” – diz ele. Segundo o perito, a interpenetração dos planos assinala uma coesão social que se realiza territorialmente para além dos limites geográficos. “Os diferentes povoados constituem uma unidade sociológica- diz ele; mesmo que em cada um deles sejam reconhecidos os limites tradicionais, com pedras de rumo e marcos de épocas pretéritas, verifica-se uma interpenetração de domínios em que um supre suas necessidades com os recursos de outros e vice-versa. Os limites físicos não significam limites fechados e remetem para uma inter-relação bastante complexa sobre a qual se estrutura a noção de territorialidade.” Ele observa que os rumos delimitadores de cada povoado podem ser livremente transpassados pelos membros de outros povoados, embora o uso efetivo e continuado de recursos naturais, dentro destes limites, esteja condicionado ao assentimento daqueles que ali tem morada e cultivo habituais. O antropólogo acrescenta que o princípio das múltiplas conexões entre centenas de povoados numa quase península, que se manteve por quase dois séculos fora da ação das políticas governamentais, é que viabiliza as condições materiais de existência destes povoados e em virtude do qual eles constituem uma comunidade dinâmica ou um todo organizado. O intercâmbio regular entre os povoados inscreve-se dentre as necessidades fundamentais desta comunidade dinâmica, que contém uma diversidade de modos de vida em grupo, transcendendo aquela idéia de comunidade definida tão somente por critérios notadamente geográficos. “Mesmo que os povoados variem quanto ao tamanho, à composição, à atividade econômica principal e aos laços com diferentes circuitos de mercado, observa-se que seus moradores participam de um mesmo padrão de relação com os recursos naturais, de uma mesma cultura que compreende uma certa unidade territorial.” “Os antagonismos sociais decorrentes das ações mais imediatas do CLA , que ameaça dar seqüência aos deslocamentos compulsórios iniciados em 1986, pressionando de fora este tipo de organização, possibilitam que aflore com mais nitidez esta consciência de unidade em torno de interesses comuns ou de pertencimento a um mesmo território. Esta consciência tem características defensivas face à ação governamental, mas funciona como fator de afirmação étnica sinalizando para um futuro diferente.” Alfredo Wagner conclui seus pensamentos com uma indagação: “ Por que uma área tão extensa para uma base militar de lançamento de foguetes? Qual a área de Khourou, na Guiana Francesa?” No Fórum Social Amazônico, os representantes dos trabalhadores da base francesa de Khourou afirmaram, nas discussões da oficina que enfocou a questão dos atingidos pela base de Alcântara, que dez por cento do que foi desapropriado em Alcântara já lhes parece um exagero.
Negro Borjão: liderança na luta pela valorização das comunidades quilombolas
Sérvulo de Jesus Moraes Borges, 41 anos, negro quilombola, nascido e criado em Alcântara. Cresceu pescando, correndo, brincando, pegando e soltando passarinho, uma infância bem rural, bem feliz. Hoje dedica sua vida a ajudar os irmãos negros na luta pela permanência nas áreas quilombolas. Borjão, como é conhecido em todas as comunidades, tem um jeito alegre, brincalhão. Está sempre presente nas festas de Santa Maria, nas horas difíceis nas agrovilas próximas à Base Aérea, como Só Assim, Peru, Espera e Cajueiro. Conversa, escuta as denúncias e constata como piorou a qualidade de vida dos que foram retirados de suas áreas e removidos para as agrovilas. Borjão conhece todos os atalhos de Alcântara: se ruma pro Noroeste, passa por Esperança. Continuando em direção à BR, vem Vai Com Deus e as Perobas de Cima, do Meio e de Baixo. Pro outro lado fica Samucangaia, Iririzal. Pro Sul tem Itamatatiua e, aí, mais festas imperdíveis. Líder comunitário local, desde 1997 Borjão desenvolve um trabalho de conscientização com o objetivo de organizar as comunidades. O trabalho é feito em conjunto com o Centro de Cultura Negra, com a Sociedade dos Direitos Humanos e a Aconeruq, entidade que reúne as comunidades negras quilombolas do Maranhão. “Discutimos muito a questão racial, as políticas públicas que faltam, levando as pessoas a se conscientizar de que pra resolver os nossos problemas nós temos que estar organizados. É um trabalho difícil porque é muito lento.” – diz ele. Ainda jovem, Sérvulo de Jesus Borges foi convidado a se candidatar a uma vaga pra estudar e trabalhar em um projeto feito pela Aeronáutica. Conseguiu a vaga, mas, depois, percebeu que ele e outros jovens da comunidade estavam sendo usados para convencer a população a aceitar o remanejamento. “Acreditei que o projeto ia realmente trazer bons retornos para a comunidade. Ninguém entre os jovens sabia nada de Aeronáutica. Só que nunca nos informaram que nós íamos ser militares. Pra mim, foi uma surpresa muito grande, quando eu entrei na área da Companhia que eu vi aquele monte de meninos lá tudo marchando, fazendo exercícios, aí foi que me caiu a ficha que nós estávamos indo pra ser militar. E o que me marcou bastante foi quando eu li uma frase, assim, numa parede do alojamento: “O direito do soldado é não ter direito.” Borjão acredita que o projeto usou os jovens para começar as mudanças. “Eu comecei a perceber que esse projeto não era o que eles tinham nos colocado, depois do deslocamento das últimas famílias. Nós, soldados, éramos ligados a essas pessoas das comunidades, filhos das comunidades que foram deslocadas. Então, essa estratégia do convencimento, ela começa a partir dos filhos. Os filhos estão ali, trabalhando, recebendo um dinheiro todo mês, vestindo uma farda, vestindo boa roupa... Então, tudo isso serviu para que essas pessoas pudessem também se convencer de que esse projeto traria coisas boas, mas, logo depois do deslocamento, tudo o que tinha sido prometido, foi esquecido. Fiquei decepcionado e dei baixa da Aeronáutica. Voltei a viver da pesca. Para Sérvulo Borges, a Base Aérea não oferece futuro para os jovens de Alcântara nem para suas famílias. Segundo suas análises, a cidade inchou, pois criou-se no município uma expectativa muito grande em torno da Base de Alcântara. Falta estrutura, ruas, esgoto, saneamento básico. Muitos trabalhadores rurais correram para São Luiz e Alcântara. “Só que essa cidade não tem condições. A escola de Alcântara não tem nível técnico, não tem segundo grau. O jovem de Alcântara não é preparado pra nada. A escola não prepara pro mercado de trabalho, não prepara para uma discussão mais consciente. Assim, apareceu o desemprego e a miséria no Centro de Alcântara. Quantas vidas já se foram? quantas famílias não já foram desestruturadas por conta desse projeto?” – indaga. Às vezes, Borges tenta acreditar num sonho, numa utopia: “Sonho para que um dia toda essa luta que nós temos travado permita que a gente diga: “Olha, os nossos jovens de Alcântara estão preparados, porque nós temos um projeto e através desse projeto nós temos hoje uma boa escola, o jovem com uma qualidade de vida melhor; sonho com as pessoas sendo respeitadas. Principalmente, sonho em ver resolvida a questão da terra das comunidades negras, porque Alcântara é um grande território de comunidades negras. O governo tem uma dívida com a gente. Uma dívida com a história. A gente vem se debatendo o tempo todo, uma história de mais de trezentos anos e não se levou em conta toda essa história dessas pessoas, das comunidades, se passou por cima de todo um passado histórico, de toda uma luta que esse povo teve para ficar aqui nessa terra. Então, quem sabe se nós conseguimos daqui a 20, 30 anos, chegar um dia a comemorar porque a Base Espacial de Alcântara vai estar lançando foguetes e porque temos cientistas que saíram daqui, são parte desses alunos, dessas pessoas, desses trabalhadores, que são filhos de Alcântara e saíram daqui também, de dentro dessas comunidades. É muito complicado a gente ouvir falar que se consumiram milhões para se construir essa base, que se desalojaram tantas famílias, que cederam seus territórios, e que hoje, depois de 20 anos, essas famílias estão na miséria, estão chorando, estão perdendo seus filhos pras grandes capitais. Qual o futuro dessa juventude? Porque é muito humilhante a gente ler os livros, os materiais que já foram produzidos sobre a história de Alcântara, o território que essas pessoas cederam, as comunidades que viviam nas praias, comendo peixe fresco, produzindo a sua farinha, o seu alimento e, de repente, você cede esse território, numa ilusão de que a sua vida vai melhorar, e você é surpreendido por uma situação de pobreza, de miséria. Então, se um dia, nós chegarmos a ter essa conquista de ver Alcântara sendo tratada de uma outra forma, já vai estar valendo a pena – reflete. Inaldo Faustino Ribas, de 43 anos, coordenador do Movimento dos Atingidos pela Base (MAB), morador de agrovila, explica que com o remanejamento as comunidades não estão mais conseguindo se fixar na terra. “O problema é que não temos mais espaço para viver, minimamente, com dignidade.” Os quilombolas remanejados não conseguem mais trabalhar na terra e têm que buscar outras profissões. “O governo nos obrigou a uma nova realidade, mas se esqueceu que nunca capacitou os quilombolas pra nada nessa vida. A maioria mora em agrovilas e está endividada”. Inaldo denuncia ainda que vários rios estão secando e alguns transbordando, um verdadeiro desequilíbrio hídrico, depois que construíram uma barragem no rio Peptal. Outro problema é que o gás flutuante e o porto de Jacaré fizeram cair muito a produção de camarão e peixe. Contudo, nas áreas originais, onde as comunidades ainda conseguem resistir, o rio Peptal ainda é fonte de alegria para crianças como Edilson, de 13 anos, Vagner e Fábio de 12, Denilson, de 10, e Adilson, de sete anos. Eles sobem nas árvores e pulam livremente, nus, nas águas. São tudo o que brincam ser - pássaros, martins-pescadores, peixes, índios. São o que sonham, são nus, são livres, são negros. Fábio Pinheiro resume bem seu contentamento: “Aqui é bom demais.” No mesmo rio, a comunidade de Mamuna pega água. Descem as mulheres, muitas meninas, e sobem com baldes cheios de água e graça, o corpo requebrando sem derramar o líquido. Lídia Lima Serejo, de quinze anos diz que adora viver em Mamuna. “Tem a festa de Nossa Senhora da Conceição, no fim do ano, tem praia e peixe, muito peixe e muita praia. Aqui têm escola, festas.” É em Mamuna que vive o casal Gabriel Arcanjo, ambos de 76 anos, e Isabel pinho Mendes, de 70 anos. “Precisei roubar essa mulher pra casar” - diz Seu Gabriel. “Amo esse lugar, a praia, a pesca, a roça. Tô ao lado do meu amor !” Outra comunidade importante é Canelatiua, onde mora Dorinete Cerejo Moraes, 29 anos. Jeito meigo e olhar firme, um modo especial de ser, Dorinete é uma líder jovem e respeitada. Responsável pelo posto de saúde, ela é peça fundamental na organização dos quilombolas de Alcântara. “A gente resiste porque vê as comunidades que já foram retiradas e vê que a vida que eles estão levando não é uma vida do jeito que é a nossa; para eles mudou muito, a alimentação deles agora é toda comprada, principalmente o peixe, que eles não precisavam comprar porque moravam na beira da praia. Então, a gente fica olhando e vê que, se a gente sai daqui, vamos ter a vida igual a deles; então, a gente persiste e insiste em ficar aqui. E também não aceita que eles venham pra cá com papéis pra gente assinar, ninguém assina nada!” Com essa determinação, Dorinete viaja falando da luta de seu povo pra permanecer na terra. Esteve em São Luís e até no Rio de Janeiro. Mas o que gosta mesmo é de estar na comunidade, pescando e cuidando da roça, “vendo menino correndo, pescando, brincando É bonito ver o povo no roçado, o mutirão na casa de farinha. Em Canelatiua o povo é unido e feliz”.
Itapera de peixe farto e mulher valente Itapera tem 49 famílias que vivem felizes. Se de manhã vão pra roça, de tarde, pescam. Essa é a riqueza de Itapera. Cíntia Sebastiana Cerejo , de 33 anos, é uma líder da localidade. Mulher forte, tem um brilho especial, foi criança levada, nascida na comunidade. Depois viajou, estudou fora, casou, teve filhos e voltou. Nunca mais quer sair. “Eu acho que a única dificuldade que nós temos é esse conflito que a Aeronáutica tem conosco. Mas o resto, aqui, tudo é maravilhoso”. Mas Cíntia fala que nas agrovilas a coisa é bem diferente. “Cê sabe o que que é passar fome? Amanhecer o dia sem ter nada pra jogar dentro duma panela pra dar pros seus filhos? Pois aqui acontece. E onde nós moramos nunca acontece isso. A gente vai pra roça, quando volta, vai na pescaria, o marido vai na pescaria, quando chega, tem o que comer.” Segundo Cíntia, a Infraero teria feito uma reunião onde chamou os moradores da comunidade de burros. “Eles fizeram essa imagem: uma moita de capim assim, outra assim e fez um burro, dois burros, né, um pra cada lado. Quer dizer que enquanto os burros não se unissem pra comer primeiro uma moita de capim aqui, pra depois voltar e comer a outra, não daria certo. No caso, nós, enquanto nós não nos unirmos com as outras comunidades pra sair. Nós não aceitamos a pressão deles. Reunimos todo mundo na casa de farinha e botamos eles pra correr.” Nunca mais a Aeronáutica voltou à comunidade. Mulher guerreira, Cíntia faz sua roça, cuida da casa, organiza a comunidade e, no final da tarde, vai pro mar brincar com os filhos. Depois anoitece, o céu é um festival à parte, dias de estrelas, outros de lua cheia, até de manhã quando o sol dá seus primeiros lampejos e alguns jovem caminham com seus cofos (cestos onde guardam a pesca) em direção ao mar. Jogam as redinhas, buscando sardinhas pra iscas que guardam em cestos maiores, que servem de armadilha. Depois colhem guapuru, bagre, tainha. No mangue tem sururu, ostra, caranguejo. É fim da festa de Santa Tereza em Itamatatiua. Santa Tereza era uma freira que queria trabalhar numa comunidade pobre e de negros. Santa Tereza e sua organização religiosa, Carmelitas, tinham 56 mil hectares de terras, terras de Itamatatiua. Santa Tereza e as Carmelitas tinha escravos. Os escravos cuidavam dos doentes, dos idosos, trabalhavam a terra e faziam cerâmica. Santa Tereza prometeu a terra aos escravos. Santa Tereza morreu e hoje a festa canta sua vida nos terreiros e nas igrejas. Artistas de Itamatatiua fizeram artesanato de cerâmica. Os cânticos louvaram Santa Tereza. Roubaram a santa; é a tradição. Percorreram todas as casas, encontram a santa. Cantaram. Teve dança, oração na igreja e na batucada dos negros. Mulheres negras rodaram as saias. Homens cantaram toda a noite o canto dos tambores, batidas e murros de vida, no coro esticado no fogo, afinado. Dança negro! |